Meu próprio amo-odeio-amo o Rio de Janeiro

Eu compartilhei um texto no Facebook que fala sobre os problemas no Rio de Janeiro, do ponto de vista de uma paulista. Duas amigas que moram na cidade, uma delas carioca, criticaram texto e disseram que eu faria um melhor. Então, decidi fazer o meu próprio. Não para ficar melhor, mas para que ele seja a minha opinião, barramansense, sobre o Rio - e seus problemas. 

Fui até a janela do meu quarto, que está quase sempre fechada por conta do barulho. Abri, e observei. Um dia cinza, chuvoso. Os carros passando na avenida, vários prédios em volta. Ali embaixo, o rio Maracanã, poluído. Mais distante, a galeria onde duas pessoas já morreram em assaltos desde que moro aqui. 

Então, eu observei de novo. De um lado, um morro. Não, não era uma favela. Um morro, com árvores, natureza, no meio da cidade. Do outro lado, pude ver o Maracanã. Me lembrei da chuva de fogos no encerramento das olimpíadas. Naquele dia, estava trabalhando, com chuva e frio. Lá do alto do estádio, ventava muito. Mas quando a Marilene de Castro começou a cantar "Pelo tempo que durar", enquanto a tocha olímpica apagava, eu chorei. Estava grata por participar desse momento, ao vivo. E foi o Rio de Janeiro que me proporcionou esse momento. 

Sim, eu odeio muitas coisas no Rio. Odeio não conseguir andar na rua, por conta dos milhares de ambulantes. Odeio passar pelo histórico Centro, e ver o lixo pelas ruas. Restaurantes jogando os restos ali, na calçada. Odeio não me sentir segura. Odeio o trânsito louco dessa cidade. Odeio quando os jornais só mostram o susto dos moradores da Zona Sul com a violência, e não mostram quem vive com esse medo, na porta de casa. Odeio o barulho de sirenes, o tempo todo. Odeio conhecer pessoas com salários atrasados, sem faculdade, sem emprego - por conta de políticos corruptos. Odeio saber que esses políticos foram eleitos por mim também, quando eu ainda nem morava aqui. Odeio cada vez que uma criança me pede dinheiro, ou tenta vender uma bala e eu não posso ajudar. Odeio o tapa na cara que o Rio me dá, diariamente, mostrando o quanto que eu tenho e o quão impotente eu sou para os problemas do mundo. 

Mas, quando eu paro para pensar, tem muita coisa que amo no Rio. Amo quando eu estou esperando para pegar o VLT na rodoviária, e vejo o Cristo Redentor, me recebendo na cidade. Lembro quando eu fui lá em cima pela primeira vez, ano passado, e vi o Rio todo: a riqueza, a pobreza, a cidade e a natureza. Amo quando estou na Presidente Vargas, e vejo à Candelária, iluminada, majestosa. Amo a brisa do mar e não ligo se a maresia corrói os móveis - eu quero morar em frente à praia. Amo poder ver todas as belezas naturais do Rio. Amo que a maioria das pessoas não ligam para como você está vestida - de calça na praia, de chinelo na faculdade, com aquela sua calça rasgada favorita. Amo como as pessoas puxam assunto, do nada. Amo essa necessidade de falar do carioca, amo a simpatia. Amo que até os mais humildes, não deixam de sorrir. Amo as gírias. Amo riscar coisas da minha lista de "Coisas que todo mundo que mora no Rio deve fazer".

(Pessoalmente, amo que metade dos meus amigos do Rio, não são cariocas. Amo sair no carnaval com uma amiga, e no último dia já ter conhecido amigos de amigos de amigos e estar num grupo de mais de 10 pessoas. Amo, hoje poder dizer, que amo o carnaval. Amo os amigos que conheci na faculdade, lá em 2015, amo até os que não são como 'todo carioca'. Amo aquela turma que se odeia e tem as mesmas histórias desde o primeiro período, mas continua contando para todos os professores. Amo os que fiz durante as Olimpíadas, amo toda vez que lembro das nossas madrugadas Engenhão > Buxixo, quando Nego do Borel puxa assunto com seus amigos. Amo toda vez que lembro da roda de samba, ensinando as gerentes gringas a sambar. Amo os amigos que fiz recentemente, e não amo só porque eles são minha companhia para não pagar uber sozinha para ir pra casa. Amo porque eles são de publicidade e nunca entendem nada que eu falo de jornalismo, ou nada que eu falo no geral - e mesmo assim são quatro amorezinhos. Amo as pessoas, amo quando elas amam meu sotaque.)

Talvez, meu lugar preferido no mundo ainda seja minha casinha em Barra Mansa. Mas, mais do que nunca, posso dizer: eu amo o Rio. Amo por tudo que citei, até pelo que odeio. Porque, se eu não me deparasse com essas coisas, poderia viver no meu mundinho para sempre, sem nunca querer mudar. Hoje, eu choro pelo Rio de Janeiro e espero pelo dia que ele possa ser melhor, mais justo e menos violento. Por amar a cidade, eu vou continuar me revoltando - com a desigualdade social, com a violência, com o preconceito.

Ao contrário do texto que compartilhei, posso dizer com toda certeza, que amo estar aqui. Posso até fazer parte dos 56% que quer ir embora. Mas eu quero voltar, também. Por quê? Porque eu amo o Rio. E amo mais, muito mais, do que amava quando me mudei para cá. 

Estou aqui chorando.
Não de tristeza, nem de alegria.
Apenas, chorando.

Percebi que gosto de você.
De uma forma totalmente inesperada.
É, eu gosto de você,

Seu sorriso de menino.
Que bom que você me traz alegria.
Como não sorriria?

Esses versos perdidos
Os junto e me declaro silenciosamente.
Sorrindo, para você.

Somos todos porquês.

O Ensino Médio sempre me foi indiferente. Boas lembranças, bons amigos, bons professores. Muitas dúvidas, algumas decepções, cansaço. Na balança equilibrava. Isso até eu assistir '13 Reasons Why'. Graças à série, pude repensar esses três anos - sob outros olhos.
Não sei se foi por nunca ter mudado de escola ou sofrido repressões. Talvez seja porque a cadeia social das 'High Schools' é mais massacrante que a realidade do Ensino Médio daqui. Mas, apesar de entender os conceitos de bullying, depressão e abusos, eu nunca tinha parado para pensar nas pequenas atitudes, no que se torna a bola de neve. No que nos faz pessoas boas e ao mesmo tempo porquês.
Sempre me considerei uma pessoa boa. Ou pelo menos me esforcei para isso. Sempre tentei ajudar as pessoas que estavam com problemas. Ouvir, aconselhar. Então, eu poderia pensar "nunca magoei ninguém, nunca agredi ninguém". Depois desses treze episódios, não posso mais pensar assim.
Hoje, entendo que, se não falei palavras ruins, pelo menos uma vez eu as propaguei. Mais de uma vez. Acontece, toda vez que alguém conta da menina que bebe nas festas até desmaiar. Ou que tem suas fotos íntimas publicadas. Ou que ela deixa ser tocada por um menino, e assim fica taxada e fácil. Ou quando ela beija muitos. Ou muitas. Ou ninguém. E o mesmo, inversamente, com os meninos. (Nem sempre com a mesma repercussão.)
Nós julgamos e somos cruéis. Somos jovens e, muitas vezes, não temos dimensão da dor que podemos causar. Da dor que já causamos. Sem dar spoilers, nem Hannah tinha. Ela foi machucada, de inúmeras maneiras. Mas ela também machucou, sem perceber. Ela não viu que, como jovens impulsivos, alguns a magoaram tentando mostrar que gostavam dela. Ela não teve como ver.
Aqui, não estou defendendo o que nenhum deles fez. Ou culpando a vítima. Mas Hannah foi um porquê, pelo menos para um deles. Todos nós somos um porquê. Nós menosprezamos, criticamos, zoamos as vidas alheias - sem ao menos saber 15% sobre essas mesmas vidas. 
Me pergunto, se vamos reproduzir esse ódio para sempre. Eu mesma, durante meu Ensino Médio, deixei de fazer coisas que queria por medo do julgamento dos outros. Desde que entrei pra faculdade, sinto que evolui (pouco, mas evolui). Tive a oportunidade de rever meus preconceitos, aceitar melhor as diferenças. Talvez seja a influência de uma metrópole ou de uma instituição com valores diferentes da minha antiga escola.
Mesmo me posicionando contra desigualdades e me revoltando com preconceitos, percebo que ainda cometo alguns deslizes. Quando volto para minha cidade, vejo que estamos parados no tempo. O lugar que todo mundo se conhece é também o lugar que ninguém esquece. Ao descrever uma pessoa, descrevemos os seus 'erros'. O que foi fofoca é mais fácil de lembrar, né?
Passados dois, três, cinco anos. Ainda lembramos das escolhas feitas pelos outros. Escolhas que só interessam a eles. Lembramos e criticamos. E também somos atingidos pelos outros, também sofremos quietos. Mas continuamos o ciclo vicioso. Assim, nos mantemos como um porquê. Quem sabe se um dia deixaremos de ser.


Faz tanto tempo que você nem tenta
Que qualquer um que tenta
Tenta mais que você.

Eu até me esforço pra não te abandonar
E mesmo que você já tenha me abandonado
Não te abandono por completo.

Queria que você ainda existisse
Como existe nos meus sonhos
Onde nós ainda existimos.

Mas você não tenta
E eu te abandono pouco a pouco
Até nossa existência entrar em extinção.